Alô Concurseiro

Falou e disse: Não embarque no ondismo

O professor Chico Viana associa a variedade de temas própria da crônica com reflexões e comentários sobre a língua portuguesa. Contato com a coluna: falouedisse@jornaldaparaiba.com.br

“Onde” é um advérbio relativo. Seu papel é fazer o termo ao qual se refere aparecer na oração adjetiva como um adjunto adverbial de lugar. Por exemplo: “O gramado / onde o atleta resolveu acampar / era malcuidado.” Como o gramado é um lugar, o “onde”, que o retoma, está bem empregado na frase. Entende-se, colocando a oração adjetiva na ordem direta, que “o atleta resolveu acampar no gramado”.
O problema começa quando se esquece o valor semântico desse conector e se passa a usá-lo indiscriminadamente. Ele vira uma espécie de curinga e junta as orações sem indicar exatamente o nexo que existe entre elas. A esse tipo de abuso dá-se o nome de ondismo.
Veja alguns exemplos retirados de redações. Entre parênteses aparecem os conectivos que o advérbio relativo indevidamente substitui (deixamos de corrigir outros problemas existentes nas frases):
(1) “Esses indivíduos possuem o humor instável, onde muitas vezes irrita as pessoas.” (que)
(2) “A qualidade de vida melhorou com a Revolução Industrial, onde as massas começaram a consumir mais.” (quando)
(3) “Isso se deve à mania comparativa, onde hoje estamos nos comparando com os amigos, colegas de turma ou do trabalho etc.” (pois)
(4) “Cada família tem sua forma de educar e passar seus valores, onde os jovens podem se deparar com estruturas familiares opostas as suas.” (então, por isso)
(5) “O bate-papo da internet está assassinando a língua portuguesa, onde ocorre entre pessoas que têm base escolar”. (embora ocorram entre pessoas…)
Nos exemplos (1) e (2) o “onde” toma o lugar de relatores semelhantes a ele (ou seja, que retomam termos anteriores: “humor” e “Revolução Industrial”). Nos casos (3), (4) e (5), substitui conectivos que sequenciam orações (explicativa, conclusiva e concessiva, respectivamente).
Há situações em que ele não tem valor algum e aparece por uma espécie de automatismo, substituindo sinais de pontuação (6,8) ou se antecipando a termos que indicam lugar e tempo (7,8). Confira:
(6) “De tudo que meu avô me ensinou, essa foi a maior lição, onde a alegria transforma o impossível em possível.” (substitui os dois-pontos)
(7) “Foi estudar no colégio Pio X, onde lá terminou todo seu período escolar.” (antecipa um advérbio de lugar e gera um pleonasmo).
(8) “O ser humano desde a sua existência tem um lado criativo de ser; uns, pouco aguçados e outros mais, onde na pré-história, por exemplo, o homem se adaptava criando ferramentas tanto para caça quanto para necessidades próprias.” (substitui o ponto e antecipa, inadequadamente, uma expressão indicativa de tempo).

TIRE SUA DÚVIDA

E-mail de Adauto R.: “Professor, peço-lhe, por gentileza, para dirimir a dúvida: diante de RODO (rodoanel, rodoshopping, etc.) quando devo usar o hífen? Obrigado.”
Caro Adauto, o uso consagrou essas grafias considerando que nelas “rodo” é forma presa, ou seja, não tem existência autônoma e por isto se liga sem hífen à palavra seguinte.
No entanto a norma não condena as grafias “rodo-anel” e “rodo-shopping”, pois “rodo” é forma abreviada de “rodoviário”. Vale para elas o mesmo princípio que autoriza o hífen em palavras como “bel-prazer”, “grã-fino”, “luso-brasileiro”, nas quais os primeiros termos são abreviações de “belo”, “grande” e “lusitano”.

DE OLHO NO VESTIBULAR

“A teoria existencialista alega que o homem é produto do meio em que está inserido.” (Redação de aluno)
A citação de termos científicos ou filosóficas na redação tem os seus riscos. O maior deles é se confundir os conceitos, como fez o estudante na passagem acima.
O existencialismo não é uma teoria, mas uma corrente filosófica. O aluno misturou as bolas, pois essa corrente se opõe ao princípio determinista de que o homem é produto do meio. Vê o ser humano como fruto das suas escolhas, que decorrem de uma consciência livre. O homem está condenado à liberdade, conforme escreveu Jean-Paul Sartre, um de seus principais representantes.
Eis a frase corrigida: “A teoria determinista afirma que o homem é produto do meio em que está inserido.”
PALAVREANDO

A natureza é sábia. Para tornar o homem resignado com a evidência da morte, dá-lhe antes a velhice.
****
Não se deve invejar a vida dos escritores. Eles vivem mais a estante do que o instante.
****
Hoje é fácil interagir. Você lá, eu aqui… No mundo virtual estamos sempre em contato — mas ninguém se encontra de fato.

 

Originalmente publicado no Jornal da Paraíba, no dia 08 de março de 2015.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *