Falou e disse: Use vocábulos precisos

O professor Chico Viana associa a variedade de temas própria da crônica com reflexões e comentários sobre a língua portuguesa. Contato com a coluna: falouedisse@jornaldaparaiba.com.br

Uma das condições para escrever bem é usar as palavras com precisão. Infelizmente nem sempre se constata essa virtude nas redações, por motivos que variam da semelhança entre os vocábulos (parônimos) ao desconhecimento do que eles significam.

Precisão não é concisão. A concisão se relaciona com o pensamento e a estruturação da frase. É a capacidade de dizer o essencial com poucas palavras. Um texto conciso é aquele em que não há o que cortar. A precisão, por sua vez, diz respeito ao emprego exato das palavras. Exige o conhecimento do dicionário e a percepção dos sentidos que os vocábulos assumem nos variados contextos. O oposto da concisão é a redundância; o oposto da precisão é a ambiguidade.

Vejamos alguns casos extraídos de redações. Entre os verbos, é comum a escolha indevida de “suprir”, “sofrer” e “melhorar”. Exemplos:

– “O diálogo é de extrema importância para construir um mundo mais humano e suprir os conflitos.”
– “O país sofreu grandes avanços nos últimos anos.”
– “Há algumas semanas, o governo viu na importação de médicos estrangeiros uma das formas de melhorar esse problema.”

“Suprir” significa “preencher”, “prover”, “completar”. É inadequado, então, afirmar que se “supre” um conflito. O engano talvez se explique pela confusão que comumente se faz entre esse verbo e “evitar”, ou “solucionar”. É também inexato dizer que um país “sofre avanços”. “Sofrer” significa “padecer”, “ser alvo de um golpe físico ou emocional”. Essa ideia não se compatibiliza com a euforia que os avanços sociais e econômicos trazem. Um país “experimenta” ou “passa por” avanços.

“Melhorar um problema” não deixa de ser ambíguo. Seria aperfeiçoar o problema e com isso torná-lo, digamos, mais problemático? Ou se trata de reduzir os seus efeitos? Em nenhuma das duas possibilidades se cogita do essencial, que é “resolvê-lo”.

Entre os adjetivos não raro se confunde “propenso” com “propício”, como se vê nesta passagem: “As pessoas que têm amigos felizes e saudáveis são também propícias a seguir o exemplo deles.” “Propenso” quer dizer “tendente”, “suscetível”. É o particípio irregular do verbo “propender”, com o qual se relaciona o substantivo “propensão” (tendência). Já “propício” significa “conveniente”, “adequado” (fala-se, por exemplo, de uma “ocasião propícia”).

Há trocas que podem comprometer o redator. Num texto sobre ciência e religiosidade, um aluno escreveu: “Logo, se faz necessário que os religiosos sejam mais volúveis em relação aos dogmas de suas igrejas.” Ao confundir “flexíveis” com “volúveis”, ele sugere que os religiosos sejam levianos, mudem facilmente de opinião acerca de pontos fundamentais de suas crenças. Conselho nada edificante!

Quando a confusão se dá entre parônimos, pode ocorrer ou não um leve parentesco semântico. Num ou noutro caso, a escolha por vezes soa engraçada. Por exemplo: “A corrupção está agarrada na mentalidade dos países subdesenvolvidos.” A corrupção não “se agarra” – “se arraiga”.
DE OLHO NO VESTIBULAR

Além da falta de coerência desse projeto na questão do Estado interferir na forma de educar, ele não esclarece quais serão os critérios usados para associar a punição ao nível de gravidade das palavras. (Redação de aluno)
As ideias do período acima estão mal articuladas. Falta ao texto coesão e clareza. A razão disso é que o termo “o projeto” (sobre a interferência do Estado na educação dos filhos) não se correlaciona com o pronome “ele”. Isso determina uma quebra na estrutura. O correto é, desde o início, apresentar “o projeto” como sujeito. Por exemplo:
“Além de o projeto ser incoerente, por permitir que o Estado interfira na educação dos filhos, ele não esclarece quais os critérios para associar a punição ao nível de gravidade das palavras.”
TIRE SUA DÚVIDA

E-mail de Luciano F.: “Professor, vou fazer concurso e queria saber o que devo estudar na sua disciplina. Obrigado.”
Caro Luciano, você deve ficar atento a interpretação de textos, uso da norma culta, e aos tópicos de linguística que têm aparecido nos concursos, como coerência e coesão. É fundamental conhecer o valor e o emprego dos conectivos, bem como o papel coesivo de pronomes, verbos e advérbios em sua função de retomada (anáfora), antecipação (catáfora) e referência ao contexto (dêixis). A gramática nos concursos é cada vez mais abordada não como um fim em si, mas como um meio de garantir lógica e clareza ao texto.
MURAL

“O escritor, como qualquer outro suposto artista, é alguém em quem a vaidade normal dos outros homens é tão vastamente exagerada que ele não consegue retraí-la.” (H. L. Mencken)

Originalmente publicado no Jornal da Paraíba, no dia 01 de março de 2015.