Falou e disse: A subjetividade no texto dissertativo

O professor Chico Viana associa a variedade de temas própria da crônica com reflexões e comentários sobre a língua portuguesa. Contato com a coluna: falouedisse@jornaldaparaiba.com.br

A dissertação é um texto por meio do qual se utilizam argumentos para defender um ponto de vista. Visa à discussão de um problema, que deve ser tratado de forma objetiva. Essa objetividade pressupõe o predomínio do raciocínio e da lógica. Daí ser recomendável apagar do texto dissertativo as marcas de subjetividade, que enfatizam mais o enunciador do que a mensagem.

Geralmente se confunde a manifestação da subjetividade com o uso do eu. O problema não está no emprego da primeira pessoa, mas na forma como o autor desenvolve o tema. Quando o eu tem o caráter de um testemunho, dá veracidade à argumentação.

Dizer, por exemplo, “Senti na pele o descaso de nossos governantes com a educação” pode vir a se constituir num bom argumento para contestar o sistema educacional. A eficácia do texto dissertativo fica comprometida quando o emissor apresenta uma visão emocional e impressionista da realidade. Em vez de julgar, refletir, discutir os fatos, opta pelo achismo ou pela vagueza de expressão.

Entre os procedimentos que acentuam a subjetividade e comprometem o rigor do texto dissertativo, estão:
— a presença de expressões como acho, penso, suponho – Esses verbos devem ser evitados por dois motivos: não trazem nenhuma informação nova e indicam falta de firmeza na manifestação das ideias. Em vez de “Acho que o Brasil precisa de uma nova mentalidade política”, diga simplesmente: “O Brasil precisa de uma nova mentalidade política”.

— o uso de hipérboles – O exagero é por excelência um traço emocional. Compromete a objetividade do discurso por se constituir num juízo desmedido, que não caracteriza adequadamente pessoas, objetos e situações. Por exemplo: “A dependência da opinião dos outros é algo trágico que muda a forma de pensar.” “Em meio ao vulcão de hormônios colocados em ebulição pelo processo de crescimento, os jovens se manifestam insatisfeitos.”

— o emprego de preciosismos – Entende-se por preciosismo o apelo a vocábulos e construções pouco usuais, com o objetivo de impressionar o leitor. É o que se chama popularmente de falar (ou escrever) difícil. Exemplo:
“Deveras questionamos o melhor tratamento que pode ser dado aos nossos filhos, o qual é fundamental ao engendro de sua personalidade”. Quem escreve isso está mais interessado em aparecer do que em dizer. Não se importa com ser ou não entendido.

— a linguagem figurada – Deve-se em princípio evitar esse tipo de linguagem. É preferível a denotação, que favorece a transparência das ideias. Mesmo porque o uso de figuras constitui atributo mais de escritor do que de redator. Ninguém é avaliado no vestibular por sua “veia literária”, mas pela capacidade de desenvolver com clareza, coerência e coesão um tema.

Isto não significa que se devam proibir as tentativas de dar expressividade ao texto por meio de um ou outro desses recursos expressivos. É impossível escapar totalmente à figuração. O que se deve é retificar as associações impróprias e mostrar ao aluno que a “imagem” precisa ter nexo. O estudante vai acabar se convencendo de que, em vez de se aventurar por esse terreno incerto, é mais seguro usar o repertório que a denotação lhe oferece.
DE OLHO NO VESTIBULAR

“É preciso que a comunidade brasileira participe e fiscalize essas ações governamentais para que juntos possamos tear fio por fio a tão sonhada igualdade de gêneros.” (Redação de aluno)

Na passagem acima há um problema gramatical e outro semântico. O gramatical é a atribuição de um mesmo complemento a verbos de regências diferentes (“participar” é transitivo indireto; “fiscalizar”, transitivo direto). O ideal é suprimir um desses verbos.

O problema semântico é um curioso exemplo de imprecisão vocabular devido a uma relação metonímica. Explicando: não existe o verbo “tear”. O tear é o artefato com que se tece. O desvio metonímico consiste, pois, em se usar o instrumento pela ação.

Eis a frase corrigida: “É preciso que a comunidade brasileira fiscalize essas ações governamentais para que juntos possamos tecer fio por fio a tão sonhada igualdade de gêneros.”
O FINO DA PROSA

“Até a palavra ‘figura’ já é uma figura. É impossível falar ou escrever sem metáforas, e quando parece que o fazemos é porque se tornaram tão familiares que são invisíveis.” (Ernesto Sábato, em “O escritor e seus fantasmas”)
PALAVREANDO

Um paulista visita o Nordeste e ouve de um nordestino:
— Muita gente aqui passa a pão e água.
— Que luxo!
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Esta frase ouvi de Pedro Nava: “A experiência é um carro com os faróis apontados para trás.”

 

Originalmente publicado no Jornal da Paraíba, no dia 22 de fevereiro de 2015.