Falou e disse: Mais erros lógicos na redação

O professor Chico Viana associa a variedade de temas própria da crônica com reflexões e comentários sobre a língua portuguesa. Contato com a coluna: falouedisse@jornaldaparaiba.com.br

Seguem outros erros que comprometem do ponto de vista lógico a redação. Um muito frequente é o non sequitur, expressão latina que dizer “não se segue”. Trata-se de um raciocínio falacioso em que a conclusão não decorre das premissas. Ou seja: deduz-se do que se afirmou algo que não tem nada a ver.

Um exemplo aparece nesta passagem: “Bill Gates afirmou numa entrevista que irá doar uma parcela da sua fortuna para caridade. Ele disse que não acha construtivo seus filhos crescerem tendo bilhões de dólares. O desejo dele deve ser que seus filhos sejam donos do planeta.”

É clara a desconexão entre o que o aluno apresenta nos primeiros períodos e o que, a título de comentário conclusivo, afirma no terceiro. Se Gates vai destinar uma parcela do seu dinheiro a obras de caridade com o intuito de melhor educar os filhos, como pode desejar que eles sejam “donos do planeta”? Um gesto que estimule tal presunção nada tem de construtivo.

O non sequitur também ocorre quando se ligam informações que não têm relação uma com a outra. O elo pode até existir, mas não é adequadamente explicitado. Em razão disso, cria-se uma lacuna na sequência das ideias.

Numa redação sobre a Copa do Mundo, um aluno escreveu: “O Brasil se prepara para a Copa e as pessoas estão consumindo cada vez mais.” A princípio não está claro qual o vínculo entre as duas orações. Talvez tenha passado o seguinte pela cabeça do estudante: “a proximidade da Copa faz com que muitos queiram ver os jogos em aparelhos eletrônicos novos. Isso aumenta o movimento nas lojas que vendem esses objetos e acaba elevando o consumo como um todo.” Ele pode, claro, não ter querido dizer isso. Caberá ao leitor adivinhar o que não foi expresso.

Outro erro comum é a má apresentação do círculo vicioso. Como o nome sugere, o círculo vicioso é um tipo de raciocínio circular; nele um termo aparece como causa de outro que também o determina. Pode ser representado pelo esquema: A causa B e B causa A. Por exemplo: “O Brasil investe pouco em educação (A), por isso não cresce (B); não crescendo (B), destina pouca verba à educação (A)”.

A má formulação desse raciocínio ocorre quando apenas se invertem os termos, sem permutar a relação causa/consequência. O resultado é que não se estabelece a circularidade. Apenas se repete a afirmação inicial trocando a ordem das orações, como neste exemplo: “O jovem toma drogas porque não encontra um sentido para a vida, e uma vez que não encontra um sentido para a vida toma drogas.” Para indicar corretamente o círculo vicioso, bastaria deslocar o conectivo causal: “O jovem toma drogas porque não encontra um sentido para a vida, e não encontra um sentido para a vida uma vez que toma drogas.”

Outra falha é o erro de acidente, que faz o redator considerar um atributo acidental como essencial; ou avaliar o geral pelo particular. Por esse raciocínio, o que ocorre com um indivíduo pertencente a determinado grupo é estendido a todos os componentes do grupo. Disso resultam falsas generalizações, como a de que “todos os políticos são corruptos”, “as mulheres são consumistas” etc. Esse tipo de extrapolação pode ocorrer tanto em prejuízo quanto em proveito de um grupo ou classe.

Numa redação sobre o papel das Organizações não Governamentais na sociedade, um aluno escreveu: “A análise da ONG ‘Nova Vida’ mostra que essas instituições são importantes, pois defendem causas nobres e fortalecem os movimentos sociais.” Por mais que se tenha respeito por essas entidades, não se pode julgá-las com base na observação de uma só.

TIRE SUA DÚVIDA

E-mail de Marisa L.: “Professor, na frase ‘Nunca entendi porque ele bateu em mim’, está correto o emprego do ‘porque’? Obrigada.”
Não está. “Porque” (escrito junto) é conjunção; introduz uma oração que indica o motivo do que está expresso na oração principal.
Na frase que você nos manda não existe oração causal. Existe um processo interrogativo por meio do qual o falante quer saber a razão do abandono. Para isso ele utiliza uma construção formada com preposição (por) mais pronome interrogativo (que).
Esses termos deve estar separados, pois equivalem a “por qual motivo”, “por qual razão”. O correto, então, é escrever: “Nunca entendi por que ele bateu em mim”.

MURAL
“Cabe à escola ensinar o aluno a escrever corretamente e também explicar por que as regras são assim, e não de outra maneira. Mas escola não é o lugar onde se subverte e revoluciona a estrutura da língua. Essa tarefa pertence aos escritores, se estes consideram que têm motivos para o fazer.” (José Saramago)
PALAVREANDO

Haicai: Olho, triste, o meu retrato/ e já nem sei/ se sou eu de fato.
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Uma piada é um tiro na estupidez.
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Quem jura amor eterno é ingênuo ou mentiroso.

 

Originalmente publicado no Jornal da Paraíba, no dia 25 de janeiro de 2015.