Alô Concurseiro

Falou e disse: Erros lógicos

O professor Chico Viana associa a variedade de temas própria da crônica com reflexões e comentários sobre a língua portuguesa. Contato com a coluna: falouedisse@jornaldaparaiba.com.br

Escreve bem quem pensa bem. Uma das condições para isso é evitar erros lógicos, que denotam falhas no raciocínio e afetam a coerência. Tais erros comprometem qualquer tipo de texto, mas são especialmente nefastos naqueles (como o dissertativo-argumentativo) em que o rigor na articulação das ideias é fundamental.

As falhas lógicas mais encontradas nas redações são as que decorrem do raciocínio deficiente. Entre elas destacam-se as definições inadequadas, a atribuição de falsas causas ou explicações e a petição de princípio. Vejamos um pouco sobre cada uma.

Definir é explicar o significado de um termo; é delimitá-lo em função de suas características essenciais. Para fazer isso, é preciso conhecê-lo muito bem. As definições inadequadas se devem justamente ao desconhecimento acerca do objeto definido. Quando isso ocorre, cometem-se imprecisões como esta: “A acumulação de objetos desnecessários, chamada de transtorno obsessivo-compulsivo, ocorre em quase um terço da população brasileira.”

Sabe-se que entre os sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo está a acumulação de objetos inúteis, mas essa prática por si não o denomina. Esse tipo de perturbação psicológica envolve bem mais do que isso. Ao limitá-lo apenas a um de seus dos sintomas, o aluno o define mal.

A apresentação de falsas causas ou explicações ocorre quando o redator faz conexões indevidas nas relações entre causa e efeito. O motivo quase sempre é uma falha na sequência do raciocínio, como se vê neste exemplo de uma redação sobre o culto da imagem na sociedade contemporânea:

“No Brasil, recentemente tem vindo à tona uma série de erros médicos em cirurgias plásticas, fruto da insatisfação das pessoas com sua imagem.

O aluno dá a entender que os erros médicos são provocados pela insatisfação das pessoas com a imagem. Por essa lógica, os pacientes é que seriam responsáveis pelas falhas dos cirurgiões. Isso lembra a história do marido que culpa o sofá pela traição da mulher e manda retirá-lo da sala. A mulher, com ou sem sofá, vai continuar traindo-o; da mesma forma, os erros continuarão a ocorrer estejam ou não as pessoas insatisfeitas com a própria imagem. Traição e erros cirúrgicos não ocorrem pelas razões apontadas.

O equívoco do aluno se explica pela confusão que às vezes se faz entre causa e explicação. A insatisfação com a imagem indiretamente “explica” o aumento dos erros médicos, pois leva a uma maior procura pelas cirurgias. Com o aumento da demanda, torna-se estatisticamente maior a possibilidade de que tais erros ocorram. Mas dizer isso é uma coisa; outra é transferir a responsabilidade dos erros às vítimas e com isso “livrar a cara” dos cirurgiões (e deixar cada vez mais em risco a dos cirurgiados).

A petição de princípio é uma recorrência no raciocínio. Consiste, de acordo com a lógica aristotélica, em apresentar no início de uma demonstração o argumento a ser provado (por exemplo: para provar a sociabilidade do homem, começa-se afirmando que ele é um ser social). Nesse caso, uma afirmação aparece como causa dela mesma.
Há petição de princípio quando se diz que “Fulano foi reprovado porque não passou de ano”; ou que “Beltrano engordou porque ganhou alguns quilos”. Ela também ocorre nesta passagem: “A educação é muito importante para uma sociedade, não só pelo fato de ela ser de extrema importância, como também por ser um indicador utilizado para medir o desenvolvimento de uma nação”. O aluno atribui a importância da educação ao fato de ela ser muito importante!

PELOS CONCURSOS

Em concurso para o MPU, a Banca pede que o candidato leia a seguinte passagem de Sérgio Buarque de Holanda: “Existe um elo estabelecendo entre esses dois acontecimentos (a Abolição e o fim do predomínio agrário) e numerosos outros uma revolução lenta, mas segura e concentrada (…)”.
Em seguida, afirma que o autor “poderia ter usado uma oração adjetiva desenvolvida mantendo o mesmo sentido” e quer que o aluno julgue se isso é verdadeiro ou falso.
O verbo “estabelecer” está no gerúndio, que é uma forma reduzida, e pode se transformar numa forma desenvolvida (com pronome relativo). Ou seja: “Existe um elo estabelecendo” equivale a “Existe um elo que estabelece”. Diante disso, é verdadeiro o que afirma a Banca. (Mais questões em www.chicoviana.com)

TIRE SUA DÚVIDA

E-mail de Rodolfo T.: “Professor existe crase nesta frase: ‘O diretor avisou a plateia que não haverá espetáculo’? Obrigado.”
Existe, sim. O verbo “avisar” rege dois complementos – um objeto direto e um indireto. O direto é a oração iniciada pelo “que”. O indireto é “a plateia”, que deve vir antecedida de preposição. Afinal, avisa-se alguma coisa “a alguém”.
PALAVREANDO

Ele não gosta quando dizem que está conservado. Pensa logo em formol.
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— Filho, um bom diálogo é aquele em que ambos escutam.
— Mas se ambos escutam, quem é que fala?

Originalmente publicado no Jornal da Paraíba, no dia 11 de janeiro de 2015.

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