Falou e Disse: Augusto dos Anjos no Enem

O professor Chico Viana associa a variedade de temas própria da crônica com reflexões e comentários sobre a língua portuguesa. Contato com a coluna: falouedisse@jornaldaparaiba.com.br

A questão 97 do Enem 2014 (prova rosa) tem no suporte o soneto “Psicologia de um vencido”, de Augusto dos Anjos. Transcrevemos abaixo a composição e a seguir fazemos um breve comentário das alternativas propostas pela banca:

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Augusto dos Anjos, cujo centenário de morte se comemorou no último 14 de novembro, é um dos autores mais originais da nossa literatura. Morreu em Leopoldina (MG), cerca de três meses após haver deixado o Rio de Janeiro. Tinha ido morar no Rio a fim de publicar o “Eu”, seu livro famoso.

Antes de chegar a Leopoldina ele peregrinou à procura de emprego, ensinando em várias escolas e dando aulas particulares. Na cidade mineira encontrou enfim estabilidade econômica e paz para continuar produzindo sua obra, mas essa situação durou por pouco tempo. Numa manhã chuvosa o poeta compareceu resfriado ao enterro de um dos patriarcas da cidade; voltou gripado e ainda assim deu aulas à tarde e à noite. O resultado foi uma pneumonia, que viria a matá-lo algum tempo depois.

Em “Psicologia de um vencido” aparecem algumas das principais características da sua poesia, como o uso de termos científicos (carbono, amoníaco, epigênesis) o gosto pelos superlativos (profundissimamente), a tendência à morbidez (hipocondríaco, cardíaco) e a obsessão pela morte (verme, frialdade).

O poeta escreveu entre o fim do século XIX e o início do século XX, quando em nossa literatura coexistiam manifestações realistas, parnasianas e simbolistas. Na Faculdade de Direito do Recife, onde estudou, ele tomou contato com as ideias científicas advindas do Positivismo. Leu Augusto Comte, Herbert Spencer, Ernst Haeckel e outros mais que exaltavam a matéria e negavam ao ser humano qualquer dimensão transcendente. Segundo a visão positivista o homem era regido por leis fisiológicas, mecânicas, e nisto não se distinguia dos outros animais.

O “Eu” é sobretudo uma resposta agônica e desesperada a esse ponto de vista. O poeta se rebela contra o Filósofo Moderno (positivista), que traz “no deserto das ideias/ o desespero endêmico do inferno”. E procura enxergar no ser humano algo além do “horror dessa mecânica nefasta/ a que todas as coisas se reduzem”.

Diante disso, os vocábulos científicos não entram na poesia de Augusto “para restituir a visão naturalista do homem”, conforme se diz na alternativa c. Entram como ingredientes para recriações simbólicas e suporte para figuras fônicas (assonâncias, homofonias, aliterações). São um componente fundamental da expressividade a que a banca faz referência na alternativa d (como se sabe, a correta).

Vocábulos científicos e termos coloquiais concorrem para afastar o poeta da musicalidade fluida e das imagens “sublimes” comuns na escola simbolista, que se preocupa em traduzir o Inefável (ou seja, o indizível). Assim, também não está correta a alternativa b, pois não existe no paraibano nenhum “empenho (…) pelo resgate da poesia simbolista”. Ele parte do Simbolismo para incorporar elementos de modernidade à sua obra. Substitui os termos raros e nobres, que aproximam os artistas da arte pela arte, por um vocabulário cotidiano, trivial e às vezes de mau gosto.

A alternativa e também não está correta. Nela se diz que a poesia do paraibano é descritiva e incorpora valores morais e científicos depois renovados pelos modernistas. O descritivismo, sobretudo pelo que tem de exterior, está mais ligado à estética parnasiana (e também ao detalhismo próprio da investigação científica). Em Augusto dos Anjos a representação da natureza se dá a partir de um mergulho nas forças obscuras que promovem o desenvolvimento da matéria rumo à consciência. É impossível proceder a essa representação ficando num plano apenas descritivo, ou seja, destacando a superficialidade dos objetos. O que também torna incorreta essa alternativa é a afirmação de que houve por parte dos modernistas a preocupação em “renovar valores morais e científicos”. Os modernistas não tinham propósitos moralizadores; procuravam, com bastante independência de espírito, se opor à tradição e incentivar a pesquisa estética.

A alternativa a, por fim, está errada porque Augusto dos Anjos não é considerado um poeta de transição por haver praticado o soneto e fazer versos metrificados e com rima. Tais recursos constituem, na verdade, marcas tradicionais da sua poesia e até o fizeram ignorado pelos modernistas. A novidade do paraibano, entre outras inúmeras e complexas razões, estava no uso de um vocabulário até então limitado à prosa e do qual parecia impossível extrair efeito poético. Esse prosaísmo, aliado a uma visão bastante singular dos homens e de sua relação com a natureza, transformou o autor do “Eu” num “caso” que vem desafiando os estudiosos e fascinando o leitor comum.

Originalmente publicado no Jornal da Paraíba, no dia 21 de dezembro de 2014.