Falou e disse: Problemas semânticos nas redações

O professor Chico Viana associa a variedade de temas própria da crônica com reflexões e comentários sobre a língua portuguesa. Contato com a coluna:falouedisse@jornaldaparaiba.com.br

Problemas semânticos são graves porque comprometem o rigor da expressão. Quem não acerta no uso das palavras acaba dizendo o que não quer, ou não dizendo nada. As falhas semânticas decorrem, na maior parte dos casos, do desconhecimento do sentido e da confusão entre parônimos.

Um exemplo do primeiro caso: “A adolescência é o período de maior fragilidade do indivíduo, pois este se encontra favorável a influências alheias.” Favorável é “propício”, “que favorece”, e não cabe nesse contexto. O aluno quis dizer que o adolescente é “suscetível”, “receptivo” à influência dos outros. Afirmar isso é uma coisa; outra é sugerir que a pessoa nessa faixa de idade não se opõe aos que a influenciam.
Os equívocos com os parônimos são mais comuns. A semelhança de duas palavras quanto ao som faz com que se use uma pela outra. A tendência é identificá-las também pelo sentido, como se vê nestes exemplos:

1) “A pobreza é vista como um desses problemas incuráveis do mundo. Tal modo de pensar até é conivente, pois leva a crer que esse mal não pode ser resolvido.”
2) “A violência dos fenômenos monetários produziu, em numerosos países, medidas muito energéticas para atenuar as crises.”
3) “Em vez de discutir propostas, os partidos se consomem em brigas intestinais.”
Em 1 o aluno usou “conivente” no lugar de “conveniente”. Ele se refere à má-fé dos que consideram a pobreza um problema insolúvel para, com isso, justificar a inutilidade de querer erradicá-la. Em 2 se trocou “enérgicas” por “energéticas” – um engano, por sinal, bastante frequente. Enérgico é o que “tem energia, vigor”; energético se refere à energética, ou seja, à “parte da ciência que trata dos assuntos ligados à energia”.

Em 3, por fim, usou-se “intestinais” em vez de “intestinas”. Brigas intestinas seriam as que ocorrem no seio dos partidos. O adjetivo “intestino” significa “interno”, “íntimo”, “interior”; por derivação imprópria, passou a designar a parte do tubo digestivo que vai do estômago ao ânus.
Um exemplo curioso aparece nesta passagem: “É preciso que a comunidade brasileira fiscalize as ações governamentais para que juntos possamos tear fio por fio a tão sonhada igualdade de gêneros.”

O que justificaria o uso de “tear” em vez de “tecer”? A troca é tanto mais intrigante quanto o verbo “tear” não existe. Existe, sim, o substantivo “tear”, que representa o “artefato ou máquina destinada ao fabrico de tecidos, malhas, tapetes etc.”.
Se não há um dos termos, a confusão não pode ter decorrido de semelhança formal (embora “tear” lembre um verbo da primeira conjugação). Talvez a escolha tenha ocorrido por uma espécie de metonímia, que fez o aluno designar a ação pelo instrumento. Por mais improvável que a explicação pareça, vale a pena refletir.

No exemplo seguinte, retirado de uma redação sobre a Copa do Mundo, o processo de associação foi outro: “Pela tradição brasileira de desleixo com os problemas sérios, depois da Copa, o Brasil voltará à estaca anterior.”

O estudante tinha em mente a ideia de que após a Copa tudo voltaria ao “ponto de partida”. Como isso corresponde à “estaca zero”, ele fez uma espécie de cruzamento em que figuram o primeiro termo dessa locução (estaca) e o adjetivo referente ao que era antes. “Estaca” passou a ser sinônimo de “situação”.

TIRE SUA DÚVIDA

E-mail de Olívia P.: “Professor a grafia correta é ‘sócio-econômico’ ou ‘socioeconômico’? Obrigada.”
Prezada Olívia, embora muita gente escreva essa palavra com hífen, a grafia correta é sem ele (“socioeconômico”). O termo “socio” é um radical originário do francês (com base latina). Não tem existência autônoma, ou seja, não aparece sozinho na língua, por isso não se separa por hífen do segundo membro.
O FINO DA PROSA

“A infância não volta, mas não vai – fica recolhida, como se diz de certas doenças. Pode dar um acesso. Outro dia sofri um ataque não de infância, mas de adolescência: precipitei-me célere, árdego, confuso (…). Pior é ataque de infância: o respeitável cavalheiro de repente começa a agir como um menino bobo. Será que só eu sou assim, ou os outros disfarçam melhor? (Rubem Braga, em “Recado de primavera”)
PALAVREANDO

E dizia aquele político para justificar seu egoísmo:
— Vivo para ajudar o próximo, e ninguém mais próximo de mim do que eu mesmo.
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Ressaca: Sobrevivente do mar etílico,/ dou em praias de pedra/ a dolorida carcaça.
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Uma das vantagens de conversar sozinho é que a gente não fica sem resposta.

 

Originalmente publicado no Jornal da Paraíba, no dia 30 de novembro de 2014.