Uso correto da língua portuguesa é decisivo para a vida profissional

Com o aumento das exportações brasileiras e das parcerias comerciais estabelecidas com o país, cresce o interesse pela língua falada no Brasil. Muitos brasileiros, no entanto, esforçam-se para estudar línguas estrangeiras como o inglês, francês e espanhol e acabam escorregando na própria língua materna. O que eles esquecem, no entanto, é que o uso do português está impregnado em todas as etapas de sua vida profissional: desde o momento em que o candidato passa por uma entrevista de emprego até o momento em que redige um ofício em seu ambiente de trabalho, está, o tempo todo, utilizando-se da língua portuguesa e, por isso, sabê-la usar é essencial para uma carreira promissora.

“Ao mesmo tempo em que se valoriza assaz o inglês e o espanhol, porque são os idiomas para quem viaja, valoriza-se o português, para os concursos, pois, sem o domínio do idioma pátrio, está fora de questão ser aprovado. O problema é que, após instalado na vida profissional, começa-se a escrever e a falar desleixadamente, porque se acha que não se precisa mais de conhecimento algum. O brasileiro não encara a aprovação, no concurso, como o início de uma vida profissional, mas sim como uma aposentadoria, então, adeus estudo e aprimoramento da sua língua”, diz a professora de português Zarinha.

Segundo ela, o motivo para essa desvalorização do português passa pela falta de orgulho do brasileiro de falar e escrever bem seu idioma. “O brasileiro que se julga instruído, aluno de colégio particular, pessoas com diploma de terceiro grau, sentem orgulho de falar como as pessoas sem instrução. Depois vêm outros problemas: a falta de professores preparados, a falta de leitura, o uso intensivo da internet…”, opina. Não conseguir, sequer, redigir um ofício, por exemplo, acaba sendo um obstáculo que aparece com bastante frequência na vida do profisisonal. Erros de interpretação, também, acabam levando o indivíduo a cair em armadilhas e, até mesmo, a ficar mal visto no ambiente de trabalho.

Só há um meio, porém, de dominar o idioma: estudando e, sempre, prestar atenção ao que se fala e ao que se escreve. Leituras frequentes também são uma boa forma de aprimorar não só o vocabulário, mas, também, a gramática e o domínio da língua portuguesa como um todo. “Eis as exigência capitais: saber concordar, saber reger, saber pronunciar corretamente as palavras. É doloroso ouvir profissionais dizerem “existe muitas pessoas” ou “Eu lhe encontrei”, ou pronunciar “récorde” no lugar de “recorde”, a palavra corretamente proparoxítona. Só há um meio de dominar o idioma: estudando e, sempre, sempre, prestando atenção ao que fala e ao que escreve”, garante Zarinha.
Foco na língua em concursos

O candidato ao concurso do Ministério da Fazenda, cuja prova irá acontecer no próximo dia 27, Marcell Ramalho, começou a estudar, primeiramente, o conteúdo de português. “Para esse concurso, é a disciplina que vale mais pontos, então, quando comecei a estudar, foquei logo no português”, diz ele. A língua portuguesa, assim como a disciplina de matemática e raciocínio lógico, terá peso 2 na prova do certame, diferentemente das outras disciplinas que compõem as provas de conhecimento básico, que são conhecimentos de informática e atualidades, com peso 1.

Segundo ele, seus estudos são feitos com vídeoaulas e a resolução de exercícios. Fora isso, ele também está fazendo um cursinho à distância. Quando questionado sobre quais suas maiores dificuldades na disciplina de português, ele diz: ‘os tipos de conjunção, que são muita coisa, e ter de lembrar e decorar as relações entre as orações”. “Como faz muito tempo que eu não estudava gramática, foi um pouco difícil no início, quando comecei a estudar, mas, agora, já estou mais afiado”, garante.

Embora alguns restrinjam a necessidade de conhecer a língua apenas para alcançar a aprovação em um concurso, ou, ainda, para conseguir se comunicar com outros indivíduos através de sua forma oral, no entanto, essa necessidade é muito mais ampla. De acordo com o professor Chico Viana, praticamente em todas as profissões esse conhecimento se faz necessário. “É por meio dela, afinal de contas, que se veiculam os saberes e as orientações necessárias ao exercício profissional”, diz.

Segundo ele, os principais tópicos que os profissionais devem dominar são os que orientam quanto à semântica e à estruturação das orações, períodos e parágrafos. No âmbito semântico, por exemplo, é preciso usar com precisão as palavras, distinguindo parônimos e homônimos – os parônimos são palavras de significação diferente, mas de forma parecida (como ratificar e retificar) e os homônimos são palavras iguais na forma e diferentes na significação (como o advérbio cedo e a forma verbal cedo do verbo ceder).

Além disso, no âmbito da estrutura, conta muito usar bem os elementos coesivos, entre os quais os pronomes relativos, que são aqueles que representam nomes já mencionados anteriormente e com os quais se relacionam; dar a melhor ordem possível às palavras; e articular os parágrafos observando a progressão temática. “Com isso, garante-se a unidade do texto”, afirma o professor.

Pouca leitura dificulta escrita e prejudica lado profissional

De acordo com o professor Chico Viana, hoje, a língua portuguesa está dando sinais de um grave sintoma: a incapacidade dos indivíduos de compreender e produzir textos. “Para escrever bem é preciso usar a língua de forma eficiente, clara. A habilidade linguística vai além do domínio gramatical; exige o conhecimento do valor e do peso das palavras, bem como a percepção do alcance prático que os textos possuem”, explica.

Um dos grandes entraves para a boa prática da língua, para ele, é que se lê e pratica pouco o idioma e isso, mais do que amargar um grande prejuízo profissional, causa, também, um prejuízo existencial. “A língua é a mais autêntica expressão do espírito. Quem não conhece o próprio idioma acaba não se fazendo comunicar e não se entendendo a si mesmo. Ofícios, cartas, relatórios e outras produções, de natureza burocrática ou não, são meios de o indivíduo atuar na sociedade. Não saber produzi-los é se limitar como agente social”, conclui.

Hábitos do dia a dia, como o uso da internet, podem ser danosos ou positivos para a língua portuguesa. Ao mesmo tempo em que une, através da rede, os milhões de falantes dos países lusófonos espalhados pelo mundo e, também, aumenta o acervo de conteúdo disponível de literatura, por exemplo, para se ler e aprender, é a internet, também, que traz o chamado “internetês”: linguagem cheia de abreviações utilizadas pelos usuários da rede e que, muitas vezes, caso não se tenha cuidado, acaba se estendendo ao mundo real.

Para Zarinha, por exemplo, a internet é negativa e só trouxe prejuízo na escrita, na fala e uma preguiça mental incalculável, além de danos inavaliáveis para a memória. Já o professor Chico Viana traz outro ponto de vista. Para ele, a internet é muito positiva, embora seu enorme poder também constitui uma ameaça, pois contém um número quase infinito de informações que precisam ser confrontadas. “É preciso saber o que se quer buscar na rede; sem juízo crítico, é impossível discernir o que é válido e útil do que é insignificante e pode mais confundir do que informar”, diz.

Segundo ele, ao contrário do que muitos pensam, com a internet se tornou muito mais importante o papel do professor, pois é ele quem orienta os alunos para que não se percam no labirinto virtual. “Quanto ao internetês, trata-se de um jargão que, como todo jargão, limita-se a um domínio específico. É a linguagem da comunicação imediata, cujo telegrafismo se impõe em razão do contexto em que as mensagens são geradas. Isso em nada interfere em outros domínios da leitura e da produção textual”, opina.

Rafaela Gambarra